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    October 05

    Uma chance para recomeçar, nenhuma chance para mudar

    São 15h35 de uma segunda-feira. É um dia quente e eu estou cansado, com fome, suando e louco para chegar em casa. Faltam dois pontos até o terminal. Olho para o relógio do celular. Talvez dê para chegar antes das 15h40 e pegar o Mossunguê, que para mais perto de casa. Mas isso não será possível.

    O ônibus faz um brusco desvio para a esquerda. Ouço um barulho baixo, como uma pancada abafada, bem abafada. Não ouço nenhuma freada brusca, e o veículo reduz a velocidade até parar.

    Tudo se mistura. Parece que muitas pessoas já sabem o que aconteceu. Eu, não. Vou até a parte de trás do carro, onde alguns passageiros estão aglomerados. Não são necessários muitos passos até ver e constatar: há um corpo na rua.

    As portas estavam todas fechadas. Sinceramente, eu não sabia para onde ir, apenas me dirigi para a frente do ônibus. Uma passageira chora copiosamente. “Senta, filha”, diz uma senhora próxima. Mais para frente, chegando na porta de emergência, vejo o motorista ao telefone: “Um cara se jogou na frente do ônibus, eu passei em cima da cabeça dele. Vem pra cá.”

    Desço do veículo e caminho na direção do corpo. Totalmente inerte. As pessoas começam a se aglomerar. Celulares estão a postos. Mãos cobrem bocas. Cabeças balançam negativamente. A cena choca. Já tenho certa experiência – não ao vivo –, e simplesmente sou capaz, desumanamente capaz, de não tirar os olhos de tudo, do que está inteiro e do que está em pedaços.

    Não há uma quantia assustadora de sangue. Pelo menos não quanto pensei que seria. O tom é outro: pálido. Uma espécie de amarelo, definido pela incapacidade de comparar o que se pode ver com algo do mesmo tom. Simples incapacidade.

    Um funcionário da DIRETRAN aciona o socorro médico. Ou o IML, não consigo precisar. Começo a fazer de volta o caminho até o ônibus, olhando tudo com mais atenção. Percebo algo que acho ser uma sonda na barriga da vítima. No caminho, troco algumas palavras com curiosos, comentando as palavras do motorista. Aquela sonda, ou o que quer que seja, reforçam as palavras dele. Como? É um raciocínio simples. Problemas de saúde, ele deveria estar com problemas. Pelo que consegui ver das costas, parece-me uma pessoa jovem. Neste momento, chega uma viatura da polícia.

    Entre todas as palavras proferidas, descubro que o agasalho da vítima fora levantado por sobre a cabeça, em uma tentativa de amenizar a cena. Também ouço que um vendedor de cartões do ESTAR teria dito ao fiscal da DIRETRAN que a vítima balançava para a frente e para trás na calçada, indo na direção da canaleta e voltando.

    Voltando para próximo do ônibus, percebo que o segundo pneu está sujo. E não é de asfalto, nem de sangue, o que me deixa um tanto atônito.

    O motorista está tremento ao lado do ônibus. Um policial se apresenta, pergunta se ele era o motorista do ônibus acidentado, pede identificação e diz para que ele se sente. O policial se afasta, e uma mulher se aproxima: “Você não teve culpa”.

    A frente do carro está intacta. Os estragos só são vistos a partir do segundo pneu. E por todos eles até o último. Após conversar com uma colega jornalista e alguns curiosos, volto para o local onde está o corpo, agora coberto.

    Policiais tiram fotos, desta vez não por curiosidade, mas para efeitos legais. Eles retiram o cobertor branco e abaixam o agasalho também. Duas coisas ficam evidentes: os cabelos brancos e a razão pela qual algum prestativo ser cobriu o que era possível ver. Não era um jovem, como antes pensei.

    Não há mais razão para continuar naquele lugar, e, por alguns instantes, penso se deveria ter ficado por tanto tempo. Novamente vou na direção do ônibus e do motorista, por uma simples questão de direção: é para lá que está minha casa. Ele está dentro do ônibus, com a mulher que o apoiou durante todos os momentos. Aproximo-me da porta 1, e as únicas palavras que consigo dizer são: “Força, cara”. Ele me acenou um tímido “jóia” com a mão.

    Chegando em casa, observo que as notícias circularam, e o acontecido já é informado como suicídio. Preciso, sem a mínima chance de dar errado. Um sinal claro de desespero. Porém, a dúvida que me persegue agora é se outra vida será perdida de um jeito ou outro. A vida de quem, por mais inocente que seja, fatalmente perseguirá a si mesmo por estar naquele local, naquele instante e não ter tido nenhuma chance de mudar o que estava decidido. Nenhuma chance.

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